Uma clínica que fatura R$ 300 mil por mês em procedimentos elegíveis paga, no Lucro Presumido, cerca de R$ 30.640 por mês de IRPJ e CSLL. Com a equiparação hospitalar, esse valor cai para cerca de R$ 7.240. São R$ 23.400 por mês, ou R$ 280.800 por ano, que ficam na clínica.
Esse número não é uma promessa de marketing. É conta. E como a conta é o que decide se vale a pena, este artigo mostra cada passo dela, de forma transparente, para três faturamentos: R$ 100 mil, R$ 300 mil e R$ 500 mil por mês. Incluímos o adicional de IRPJ, que a maioria das tabelas simplificadas ignora, e o acréscimo de 10% nos percentuais de presunção criado pela LC nº 224/2025 para a receita acima de R$ 5 milhões por ano.
Se você ainda está entendendo se a sua clínica tem direito ao benefício, comece pelo nosso guia dos requisitos da equiparação hospitalar para clínicas médicas. Aqui o foco é o número.
Como a equiparação hospitalar reduz o imposto da clínica
No Lucro Presumido, o IRPJ e a CSLL não incidem sobre o lucro real da clínica. Incidem sobre um lucro “presumido”, que é um percentual fixo da receita bruta. Para prestação de serviços em geral, esse percentual é de 32%, tanto para o IRPJ quanto para a CSLL.
A equiparação hospitalar troca esse percentual para a receita de serviços hospitalares:
- IRPJ: a base cai de 32% para 8% da receita (Lei nº 9.249/1995, art. 15, §1º, III, “a”);
- CSLL: a base cai de 32% para 12% da receita (Lei nº 9.249/1995, art. 20).
A alíquota do imposto continua a mesma. O que muda é o tamanho da base sobre a qual ela incide. E como a base do IRPJ encolhe 75%, o adicional de IRPJ também encolhe muito, ou até desaparece, o que torna a economia maior do que muita gente imagina.
As regras usadas na simulação
Para a conta ser verificável, aqui estão todas as premissas:
- Apuração trimestral. IRPJ e CSLL do Lucro Presumido são apurados por trimestre. Calculamos o trimestre e dividimos por três para chegar ao valor mensal.
- IRPJ: 15% sobre a base presumida.
- Adicional de IRPJ: 10% sobre a parcela da base presumida que passar de R$ 60 mil no trimestre (o equivalente a R$ 20 mil por mês).
- CSLL: 9% sobre a base presumida.
- Receita 100% elegível nos três cenários principais, para isolar o efeito do benefício. Logo abaixo há um cenário com receita mista.
- LC nº 224/2025: acréscimo de 10% nos percentuais de presunção sobre a receita que exceder R$ 5 milhões no ano. A IN RFB nº 2.306/2026 fez o controle ser trimestral, com limite de R$ 1,25 milhão por trimestre. Na equiparação, isso significa 8,8% (IRPJ) e 13,2% (CSLL) só sobre o excedente. Na regra geral, 32% vira 35,2% sobre o excedente. A conta abaixo considera o ano cheio, como será a partir de 2027.
- PIS, Cofins e ISS não mudam com a equiparação e ficam fora da comparação principal.
Simulação 1: clínica com faturamento de R$ 100 mil por mês
Receita no trimestre: R$ 300 mil.
| Item (trimestre) | Sem equiparação | Com equiparação |
|---|---|---|
| Base do IRPJ | 32% x R$ 300.000 = R$ 96.000 | 8% x R$ 300.000 = R$ 24.000 |
| IRPJ (15%) | R$ 14.400 | R$ 3.600 |
| Adicional (10% sobre o que passa de R$ 60 mil) | 10% x R$ 36.000 = R$ 3.600 | R$ 0 |
| Base da CSLL | 32% x R$ 300.000 = R$ 96.000 | 12% x R$ 300.000 = R$ 36.000 |
| CSLL (9%) | R$ 8.640 | R$ 3.240 |
| Total no trimestre | R$ 26.640 | R$ 6.840 |
| Total por mês | R$ 8.880 | R$ 2.280 |
Economia: R$ 6.600 por mês, R$ 79.200 por ano. Redução de cerca de 74% no IRPJ e na CSLL.
Repare no adicional: sem a equiparação, a clínica paga R$ 3.600 de adicional no trimestre. Com ela, a base de R$ 24 mil fica abaixo dos R$ 60 mil e o adicional zera.
Simulação 2: clínica com faturamento de R$ 300 mil por mês
Receita no trimestre: R$ 900 mil.
| Item (trimestre) | Sem equiparação | Com equiparação |
|---|---|---|
| Base do IRPJ | 32% x R$ 900.000 = R$ 288.000 | 8% x R$ 900.000 = R$ 72.000 |
| IRPJ (15%) | R$ 43.200 | R$ 10.800 |
| Adicional (10% sobre o que passa de R$ 60 mil) | 10% x R$ 228.000 = R$ 22.800 | 10% x R$ 12.000 = R$ 1.200 |
| Base da CSLL | 32% x R$ 900.000 = R$ 288.000 | 12% x R$ 900.000 = R$ 108.000 |
| CSLL (9%) | R$ 25.920 | R$ 9.720 |
| Total no trimestre | R$ 91.920 | R$ 21.720 |
| Total por mês | R$ 30.640 | R$ 7.240 |
Economia: R$ 23.400 por mês, R$ 280.800 por ano. Redução de cerca de 76%.
Com R$ 3,6 milhões de receita no ano, essa clínica ainda está abaixo do limite de R$ 5 milhões da LC nº 224/2025, então o acréscimo de 10% não se aplica.
Simulação 3: clínica com faturamento de R$ 500 mil por mês
Receita no trimestre: R$ 1,5 milhão. Aqui entra a LC nº 224/2025: R$ 1,25 milhão por trimestre fica nos percentuais normais e os R$ 250 mil excedentes recebem o acréscimo de 10%.
| Item (trimestre) | Sem equiparação | Com equiparação |
|---|---|---|
| Base do IRPJ | 32% x R$ 1.250.000 + 35,2% x R$ 250.000 = R$ 488.000 | 8% x R$ 1.250.000 + 8,8% x R$ 250.000 = R$ 122.000 |
| IRPJ (15%) | R$ 73.200 | R$ 18.300 |
| Adicional (10% sobre o que passa de R$ 60 mil) | 10% x R$ 428.000 = R$ 42.800 | 10% x R$ 62.000 = R$ 6.200 |
| Base da CSLL | 32% x R$ 1.250.000 + 35,2% x R$ 250.000 = R$ 488.000 | 12% x R$ 1.250.000 + 13,2% x R$ 250.000 = R$ 183.000 |
| CSLL (9%) | R$ 43.920 | R$ 16.470 |
| Total no trimestre | R$ 159.920 | R$ 40.970 |
| Total por mês | R$ 53.306,67 | R$ 13.656,67 |
Economia: R$ 39.650 por mês, R$ 475.800 por ano. Redução de cerca de 74%.
E quanto a LC nº 224/2025 pesa na clínica equiparada? Sem o acréscimo, o IRPJ e a CSLL equiparados seriam R$ 40.200 no trimestre. Com ele, R$ 40.970. São R$ 770 a mais por trimestre. O acréscimo existe, mas é pequeno perto do efeito da equiparação. Se a sua clínica está avaliando contestar esse aumento na Justiça, explicamos os prós e contras no artigo sobre a liminar contra o aumento de 10% no Lucro Presumido.
Observação para 2026: o acréscimo vale para o IRPJ desde 1º de janeiro de 2026, mas para a CSLL só a partir de 1º de abril de 2026. Por isso, o número de 2026 fica um pouco diferente do ano cheio mostrado aqui.
Resumo das três simulações
| Faturamento mensal | IRPJ + CSLL sem equiparação (mês) | IRPJ + CSLL com equiparação (mês) | Economia mensal | Economia anual |
|---|---|---|---|---|
| R$ 100 mil | R$ 8.880 | R$ 2.280 | R$ 6.600 | R$ 79.200 |
| R$ 300 mil | R$ 30.640 | R$ 7.240 | R$ 23.400 | R$ 280.800 |
| R$ 500 mil | R$ 53.306,67 | R$ 13.656,67 | R$ 39.650 | R$ 475.800 |
Somando PIS (0,65%) e Cofins (3%), que não mudam, a carga federal da clínica de R$ 100 mil por mês vai de 12,53% para 5,93% do faturamento. Na de R$ 300 mil, de 13,86% para 6,06%. Na de R$ 500 mil, de 14,31% para 6,38%.
E quando só parte da receita é elegível?
Esse é o caso mais comum. Toda clínica que atende consulta tem uma parte da receita que não entra, porque o STJ, no Tema Repetitivo 217 (REsp 1.116.399/BA), excluiu a simples consulta do conceito de serviço hospitalar.
Vamos refazer a clínica de R$ 300 mil por mês, agora com R$ 210 mil (70%) em procedimentos elegíveis e R$ 90 mil (30%) em consultas.
| Item (trimestre) | Com equiparação, receita mista |
|---|---|
| Base do IRPJ | 8% x R$ 630.000 + 32% x R$ 270.000 = R$ 136.800 |
| IRPJ (15%) | R$ 20.520 |
| Adicional | 10% x R$ 76.800 = R$ 7.680 |
| Base da CSLL | 12% x R$ 630.000 + 32% x R$ 270.000 = R$ 162.000 |
| CSLL (9%) | R$ 14.580 |
| Total no trimestre | R$ 42.780 |
| Total por mês | R$ 14.260 |
A economia cai de R$ 23.400 para R$ 16.380 por mês (R$ 196.560 por ano). Ainda é relevante, mas mostra por que nenhuma estimativa séria sai antes de olhar as notas fiscais. O percentual elegível da receita é a variável que mais mexe no resultado. Na odontologia, por exemplo, essa fatia costuma ser bem menor, como mostramos no artigo sobre equiparação hospitalar para clínica odontológica.
O que a simulação não mostra
Três pontos que precisam entrar na decisão, além da conta:
Distribuição de lucros. No Lucro Presumido, a parcela que pode ser distribuída aos sócios com isenção, sem escrituração contábil completa, é limitada ao lucro presumido menos os tributos. Com a base menor, esse limite também diminui. Clínicas que distribuem valores altos precisam manter escrituração contábil (ECD) que demonstre o lucro efetivo.
Custo de conformidade. Segregar receita, manter alvará atualizado e organizar o dossiê documental tem custo. Em clínicas muito pequenas, a economia pode não compensar o esforço.
Risco de aplicar errado. Se a fiscalização derrubar o benefício, a clínica devolve a diferença com juros Selic e multa de ofício de 75%, que pode ser de 100% em caso de fraude ou conluio e chegar a 150% na reincidência (art. 44 da Lei nº 9.430/1996). A economia só é real quando os requisitos estão documentados antes da aplicação.
A economia que ficou para trás
Se a sua clínica já cumpria os requisitos e pagou pela base de 32% nos últimos anos, a diferença dos últimos cinco anos pode ser recuperada. Na clínica de R$ 300 mil por mês com receita mista, usando os números de hoje como aproximação, seriam R$ 16.380 por mês ao longo de 60 meses, perto de R$ 983 mil em valor nominal, antes da correção pela Selic. Como isso funciona, com prazos e caminhos, está no nosso guia de restituição da equiparação hospitalar.
Perguntas frequentes sobre a economia da equiparação hospitalar
Quanto uma clínica economiza com a equiparação hospitalar?
Com receita 100% elegível, a redução no IRPJ e na CSLL fica entre 74% e 77% nas simulações deste artigo. Uma clínica de R$ 300 mil por mês economiza cerca de R$ 23.400 por mês. Com receita mista, a economia cai na proporção da parte que é consulta.
A equiparação hospitalar reduz PIS, Cofins e ISS?
Não. A equiparação mexe apenas na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. PIS, Cofins e ISS seguem as regras próprias.
Por que as tabelas que circulam mostram economia menor?
Porque muitas ignoram o adicional de IRPJ. Sem a equiparação, a base grande gera adicional alto. Com a equiparação, o adicional cai junto com a base, o que aumenta a economia.
A LC nº 224/2025 acabou com a vantagem da equiparação?
Não. O acréscimo de 10% vale só sobre a receita acima de R$ 5 milhões por ano e atinge também quem não é equiparado. Na simulação de R$ 500 mil por mês, ele acrescenta R$ 770 por trimestre ao imposto da clínica equiparada.
A partir de que faturamento vale a pena?
Não existe um corte legal. Na prática, o que decide é quanto da receita é procedimento elegível e quanto custa organizar a documentação. A partir de cerca de R$ 100 mil por mês em procedimentos, a economia costuma ser expressiva.
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As simulações acima mostram a lógica. O número da sua clínica depende de quanto do faturamento é, de fato, procedimento elegível, de como as notas são emitidas e de quanto já foi pago a mais.
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